José Lino Souza Barros

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De Heróis a “Atormentados”: Uma sociedade que assedia seus médicos não os merece

Da psicóloga Jennifer Delgado

28/04/2020 às 12:13
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O coronavírus nos pegou de surpresa. Nosso mundo virou de cabeça para baixo. Ele colocou nossas emoções em um mixer e as devolveu misturadas e confusas. Às ondas de medo e pânico são acrescentadas ondas de esperança e força, seguidas de fases de tristeza e desconforto. (...)

De repente, os heróis que uma parte do país aplaude efusivamente de suas varandas, reconhecendo seu trabalho difícil, também se tornaram as “pragas” que poucos querem ter ao seu lado e, se possível, gostariam de marcar com uma grande letra escarlate no peito. E isso só poderia gerar um vergonha colossal. Uma raiva colossal também. E no final, uma tremenda desolação. (...)

No entanto, não há motivo, desculpa ou possível pretexto para atacar aqueles que nos protegem, salvam nossas vidas – arriscando as suas – ou se expõem todos os dias para garantir os serviços mínimos de que precisamos.

O medo, em nenhuma de suas formas, é um pretexto suficiente para esses ataques. Ausência de empatia, egoísmo abismal e ignorância, sim. Porque, como Albert Camus escreveu, “a estupidez sempre insiste”. E ela reluta em ouvir a razão, pois sua base sempre foi a irreflexão. (...)

O terrível é que aquelas pessoas que arriscam suas próprias vidas, não mais por salário, mas por consciência e responsabilidade, foram feridas no momento em que ficaram mais vulneráveis. Essas pessoas foram relegadas, separadas e rejeitadas por aqueles que até recentemente faziam parte de seus círculos de confiança. Elas foram rejeitadas por cumprirem seu dever. Por ajudar. Por salvar vidas. (...)

E isso primeiro gera enorme confusão e depois raiva infinita. Isso gera tristeza. Faz você querer jogar a toalha. Isso faz você se perguntar por quem exatamente você está lutando. E acima de tudo, se todo esse sacrifício vale a pena.

Porque o pessoal médico não é composto de heróis com armaduras à prova de balas. É composto de pessoas que realizam atos heroicos. Mas essas pessoas também sofrem pela humilhação e desprezo. Porque agora elas são extremamente vulneráveis psicologicamente. (...)

Porque se essa crise nos ensinou alguma coisa, é que um vírus pode ser assustador, mas as reações humanas podem fazer a diferença. E a partir dessa situação, como escreveu Juan Rulfo, “nos salvamos juntos ou afundamos separadamente”. Caso alguém não tenha entendido.

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