José Lino Souza Barros

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A navalha

de Nelson Rodrigues

25/04/2020 às 02:04
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Quando ouvia falar em meninas, mocinhas que se perdem, esbravejava:

— Duvido que aconteça um troço desses com uma filha minha! A culpa é dos pais! — e repetia, na sua cólera de mãe enérgica e reacionária: — Dos pais!

Chamava-se Constança, D. Constança, e tinha três filhas, a mais velha com 17 anos, a do meio com 15 e a caçula com 13. Viúva há três anos, dominava em casa pelo terror. De manhã, acordava as meninas a chineladas. E para esbofetear qualquer uma delas, na frente de visitas, não custava nada. Ela própria admitia que era violenta; berrava para as filhas acovardadas: — "Eu devia ter nascido homem!" Naquela casa, não se fazia nada sem consultá-la. As garotas, apavoradas, andavam, pelos quartos e pelas salas, na ponta dos pés, como se existisse, ali, algum doente grave, para morrer. Quando a mais velha, Lucinha, quis namorar um rapaz da rua, o Vadeco, a velha saltou:

— Que audácia é essa? Fica sabendo, de uma vez por todas, que quem escolhe o namorado de vocês sou eu! Eu e mais ninguém!

Lucinha começou a chorar.

O pretendente

Para todos os efeitos, a menina acabara com o namoro. Mas, às escondidas, foi-se encontrar ainda uma vez, com o Vadeco:

— Mamãe não quer.

O outro toma um susto:

— Você está dizendo que está me chutando?

Protesta:

Deus me livre. Você sabe que eu não mudo e que sou sempre a mesma. Só te peço uma coisa: — um pouquinho de paciência.

Vamos dar tempo ao tempo. Eu convenço a mamãe, pode deixar.

No seu otimismo de mulher enamorada, acreditava que, com paciência e jeito, pudesse comover a mãe. Beijou o namorado e separaram-se. Ou por outra: — antes de partir, o namorado olha para os lados e mostra-Ihe uma navalha:

— Está vendo isso aqui?

Balbuciou, fascinada:

— Estou.

E ele:

— Se você quiser roer a corda comigo, já sabe: — te corto a cara!

Assustada, não teve nem voz para falar. Ele concluía:

— Ou minha ou de ninguém!

O primo

Estava sempre disposta a admirar tudo o que o ser amado fizesse ou dissesse. E, nessa base, adorou a ameaça. Quando contou para as irmãs, elas a invejaram. Foi dois ou três dias depois que apareceu lá um primo, longe, das meninas: — o Altamiro. Chegara na véspera, ou ante-véspera, do Amapá. O homem teria seus 50 anos e ficou para jantar. Em dez minutos, soube-se de toda a sua vida. Enriquecera, ficara viúvo e estava, justamente, procurando uma substituta para a falecida. Explicava:

— Acho ruim dormir só. É chato.

D. Constança aprovava:

— Isso mesmo. É uma lei da natureza.

Esquecia-se de um detalhe, de menor importância, Altamiro era barrigudo. De vez em quando, repetia: — "Dinheiro há, compreendeu, D. Constança?" A velha desmanchava-se:

— Compreendi — e ajuntava: — Dinheiro não traz felicidade, mas ajuda.

O gordo piscava o olho:

— O dinheiro compra até amor sincero.

Riram os dois. Cerca de meia-noite, retirou-se AItamiro. Ainda conversou uns cinco minutos, no portão, com D. Constança e despediu-se:

— Combinado?

Foi taxativa:

— Só tenho uma palavra, Altamiro!

O drama

Quando D. Constança voltou, foi sacudir a filha mais velha, que cochilava na cadeira. Lucinha desperta e a mãe diz:

— Esse é teu noivo.

Cai das nuvens: — "Quem?" E a velha: — "Quem há de ser? O Altamiro."

Sabia que a mãe não era de brincadeiras. Mas achou aquilo tão absurdo que pensou numa piada. Mas D. Constança confirmou

— "Perfeitamente, sim, senhora. Tem dinheiro e, num casamento, o dinheiro é que resolve!" Passara privações com as filhas e tinha horror da miséria. Justificava: — "Você casa e se, por acaso, eu morrer, você cuida das outras." Quando Lucinha se convenceu de que era sério, que a mãe queria aquilo mesmo, tomou-se de desespero: — Mas nem me conhecia! E é gordo, careca, mamãe! D. Constança teria talvez perdoado outras restrições, menos as de ordem física. Arrasou a menina:

— Deixa de ser fútil, deixa de ser leviana! O que é que interessa físico? Sua preocupação, com o físico, é até imoral!
Lucinha ainda quis argumentar qualquer coisa. Mas recebeu uma bofetada, que a fez perder o equilíbrio. A pancada que a atingira perto do ouvido, a tonteou. A velha a segurou pelo braço:

— Faça-se de tola! E fique sabendo que você não se governa! Quem manda aqui sou eu!
Foi dormir com dor de ouvido. Na manhã seguinte, a mãe veio dizer-lhe:

— Você, ontem, deu aqueles palpites por causa daquele moleque, o Vadeco, não é? Pois quero te dizer o seguinte, toma nota: — prefiro te ver morta a casada com esse cretino!

Respondeu, por entre lágrimas:

— Está bem, mamãe. A senhora é quem sabe.

As bodas de sangue

Passou a andar, pela casa, como uma sonâmbula. Quase não falava, quase não comia. A mãe vivia em cima:

— "Você não come, belisca."

Para as irmãs, a garota confessara:

— "Quero morrer."

E, de fato, o seu desejo era que, no dia do casamento com o gorducho Altamiro, o namorado cumprisse a promessa e lhe desse uma navalhada mortal. No dia em que leu, num jornal algo sobre uma peça. Bodas de Sangue, experimentou um arrepio. Não queria outra coisa para si mesma. O noivo comparecia todas as noites. Conversava uns dez minutos e passava o resto do tempo dormindo, sordidamente, ao lado da garota. Finalmente, chegou o dia do casamento. Até a cerimônia religiosa esperou pelo namorado. Prostrada diante do altar, desejava que Vadeco aparecesse, de repente, e lhe vibrasse a navalhada. Teria, então, morrido feliz. Sai da igreja num desespero de todo o ser. E, na porta, tem a surpresa:

— lá estava Vadeco, à espera.

Lucinha pensa:

— "É agora!" Com deslumbramento, viu quando o rapaz, com um olhar de louco, pulou, de navalha aberta. Ela não se mexeu, como magnetizada. Mas Vadeco passou por ela e nem a viu. Passou por um, por outro, até chegar à D. Constança. E deu, na velha, no pescoço, um golpe medonho. O esguicho de sangue sujou a cara de vários convidados e o próprio véu da noiva.

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