José Lino Souza Barros

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Vendida

de Nelson Rodrigues

02/05/2020 às 12:49
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No telefone, a mãe perguntava: — Como é, minha filha? Tudo bem?
Jandira desmanchou-se no telefone:
— Ah, mamãe! Se eu soubesse que era tão bom já tinha me casado há mais tempo!
A velha, que se chamava Isaura, D. Isaura, suspira:
— Benza-te, Deus! — pausa e pergunta: — Outra coisa, teu marido já está trabalhando?
Toma um susto: — "É mesmo!" Riu, no telefone: — Mamãe, eu me sinto tão feliz, mas tão feliz, que nem me lembrei que Ronaldo tem emprego, trabalha, precisa ganhar a vida!
D. Isaura geme: — "Pois é! Infelizmente, não se pode viver só de amor!" E ela: — "É pena, mamãe! É pena! Se eu pudesse, continuava nessa vidinha até morrer!" Ao sair do telefone, Jandira vem até a escada e grita para o alto:
— Meu amor, quer descer, meu amor?

Boa Vida

Estavam casados há 25 dias e justiça se lhe faça: - não se podia desejar uma lua de mel mais linda e mais perfeita Que faziam os dois ali, encerrados, como num claustro? Carinho, só carinho, nada mais que carinho. Ele, um belo rapaz, atlético. Jandira o vira pela primeira vez no vôlei de praia e a impressionara o busto moreno e largo, que lembrava os havaianos do cinema. Ela, Jandira, uma filha de pai rico, criada com muito mimo e muito luxo. Apaixonara-se pela primeira vez e com uma violência desesperadora. Tudo fora fácil e rápido: - namoro, noivado e, por fim, o casamento de grande pompa. Há vinte dias que viviam imersos numa lancinante felicidade e, quando o marido desceu, de pijama e chinelos, Jandira o recebeu com a pergunta:
— E seu emprego?
— Que emprego?
E ela:
— O seu, ora! Quantos dias te deram de licença?
Novo bocejo:
— Meu anjo, eu não te disse, mas acontece o seguinte: na véspera do casamento, eu me despedi.
Vira-se, atônita: — "Por quê?" Ronaldo explica:
— Briguei lá.
Jandira senta-se, apavorada. Começa a fazer perguntas: — "Mas vamos viver de quê? De brisa? E por que é que você não contou?" Levanta-se e vem beijar a esposa:
— Você está fazendo um bicho de sete cabeças. Afinal de contas, seu pai é rico e...
Jandira corta:
— Mas não vamos viver às custas de papai, o que é que há? Papai é duro na queda e, além disso, tenho o meu brio. Posso pedir a qualquer um, menos a papai.
Continuaria falando se ele, de repente, não lhe fechasse a boca com um beijo tremendo. Em seguida, carregou-a no colo e ria ainda:
— Está tão bom assim. Não está? Confessa. Está sim!
E quando Ronaldo deu-lhe um novo beijo, eletrizou-se de volúpia, nos seus braços. Pedia:
— No pescoço, não! Eu tenho cócegas! No pescoço, não!

Cinismo

Mas, no dia seguinte, depois do café da manhã, volta-se para a garota:
— Olha, acabou-se meu dinheiro. E o jeito é recorrer a seu pai.
Jandira pulou: — A meu pai, nunca, e tira isso da cabeça! Nem morta, ouviu? Nem morta!" Quis argumentar: - "Mas o que é que tem? Tão natural! Um homem que não sabe como gastar o dinheiro! E se ele dá fortunas às amantes, por que não iria dar algum à filha?" A outra exaltou-se: — "Esqueça meu pai! Tenho meu orgulho, graças a Deus, e não vou mendigar nada com a minha família!" Espantado com a violência da esposa, levanta-se, vai até a janela e volta:
— Bem — admite — já vi que tenho de me virar.
A mulher, ainda exaltada, diz:
— Arranja outro emprego! Emprego, papai arranja, talvez arranje. Dinheiro é que não.
Há um silêncio. Por fim, Ronaldo levanta-se:
— Vou sair. E olha: — hoje, temos visita para o jantar. Bolei um golpe genial.
Subiu para o quarto. Quando voltou, já pronto, perguntou:
- Quer dizer que você não pede a seu pai? Nem hoje, nem nunca?
— Nem hoje, nem nunca!
Saiu, depois de avisar:
— Vou buscar o dinheiro.

A visita

Chegou com um senhor, meio claro, já barrigudo. Apresentou: — Portela, conhece minha mulher?
O outro inclinava-se:
— Muito prazer — e insistia: — Satisfação.
Jandira sorria: — "Da mesma forma." Quando sentaram-se para o jantar, Ronaldo pergunta ao Portela: — "Não é o que eu te dizia? Linda, não é? Portela, admitia, com o olho vermelho:
— Realmente, uma beleza. Uma das mulhores mais bonitas que eu vi em toda a minha vida.
Surpresa e constrangida, ela não entendia esse tom direto e brutal. Depois do jantar, Ronaldo vira-se para a mulher — "Vou descer para comprar cigarros. Faz companhia ao Portela." A sós com o visitante, senta-se. Ele puxa a cadeira para perto dela; baixa a voz, sôfrego:
— Sabe que eu não podia imaginar que você fosse tão linda?
E, rápido, antes que ela pudesse evitar, apanha as mãos de Jandira e beija uma e outra. A garota, desprende-se, com violência: — "O que é isso? O senhor está louco? Largue-me! Chamo meu marido!" Portela continua:
— Você vale os mil pratas que seu marido pediu! Vale! E até mais!
Persegue-a pela sala. Atrás de um móvel, ela está desatinada: — "Meu marido parte-lhe a cara!" Fora de si, ele berrou:
— Que palhaçada é essa? Seu marido disse que por mil pratas... Mil pratas por uma hora com você... E vale... Seja boazinha! Eu trouxe o dinheiro! Olha aqui o cheque!
Passa-lhe o cheque, que Jandira apanha e examina. Ofegante, não resiste mais; balbucia, no seu assombro: — "Quer dizer que foi ele?... Vendeu-me por mil pratas?... E na lua de mel? Mil pratas?" Então, na sua fúria meticulosa, rasgou o cheque em pedacinhos e atirou para o ar o papel picado como confete. Portela pergunta: "Que é isso?" E ela:
— Não resistirei mais. Pode me beijar, mas de graça. Vou ser de um, de muitos, de todos, mas não quero custar nada, um tostão, um centavo!
Uma hora depois, aparece Ronaldo. Portela já estava de saída. Jandira leva-o até a porta. E Ronaldo ouviu-a dizer:
— Volte quando quiser, mas de graça. E avise a seus conhecidos que o cachorro do meu marido não vai ganhar um centavo comigo!

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