José Lino Souza Barros

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Diário da quarentena 

Nem se fosse um filme Do professor Edmundo Novaes e faz parte do projeto Diário da quarentena, do colunista Helvécio Carlos

27/04/2020 às 11:27

Se há três meses me dissessem tudo que está acontecendo agora, eu diria à pessoa:

-Você está delirando. Ficou louca? Eu? Ficar um mês inteiro sem colocar os pés fora de casa? Lavando as mãos de meia em meia hora, fazendo gargarejo, nebulização? O quê? Sem assistir telejornais? Isso é loucura sua. Olha, querida, eu sou um sujeito tranquilo. Posso até dar uma pirada de vez em quando, mas sei manter a calma, nunca perdi a cabeça. Não vou parar de ser quem sempre fui só por causa de um... de um... de um vírus.

Isso mesmo. Há três meses, nem de longe passaria pela minha cabeça que eu, hoje, estaria vivendo um isolamento inacreditável. Há exatos 27 dias não saio de casa, não beijo meus filhos, não vou ao Mercado Central, não ando de bicicleta pedalando solto pela cidade, não bato pé pelas ruas, não almoço fora de casa. Há mais tempo ainda não vou à universidade em que trabalho, não encontro companheiros, não vejo meus alunos, não vou ao cinema ou ao teatro, não encontro minha irmã e nem o amigo com quem mais gosto de conversar.

Lembro que, quando jogaram os aviões no World Trade Center, eu disse:

-Nem se fosse um filme!

Outro dia, da varanda de meu apartamento que dá para uma das principais avenidas da cidade, enxerguei a tarde inteiramente vazia. Nem feriado, nem domingo. Era dia da semana, quando normalmente, aqui onde moro, é preciso abstrair para esquecer os engarrafamentos que acontecem lá fora.

Sim. Parece coisa de cinema. A Madrid de “Abre Los Ojos”, filme de Alejandro Amenábar, agora tomou conta de toda cidade grande do mundo. Raros me parecem os lugares em que a vida não mudou de cara; em que as pessoas - pelo menos as mais sensatas - não evitam o convívio social; em que nós, seres humanos e presas fáceis de vírus novos e vermes com mais de 30 anos de vida pública, não tenhamos passado a esquivar um beijo, um abraço, um simples aperto de mãos.

O filme acontece agora e somos todos protagonistas.

Enfurecidos ou pacatos, bêbedos ou inteiramente sóbrios, imbecis ou inteligentes, resignados ou impacientes. Estamos aqui, para o que der e vier.

Sim. Estamos aqui, ainda que eu esteja num lugar de privilégios impensáveis para quem é pobre neste Brasil que tem contabilizado tanto ódio, medo e tristeza, mesmo antes de tudo isto.

Mas, agora, somos todos iguais no desejo de vencer um jogo cujo prêmio ao vencedor não é outro senão sobreviver.

E é o que venho fazendo agora.

Personagem de uma história que não é de ninguém senão minha, lavo as mãos com cuidados que nunca tive antes; não assisto mais telejornais que irão dizer o que já sei; procuro, como meu pai me ensinou, mastigar mais vezes e mais religiosamente a comida que levo à boca; trabalho mais do que antes, mesmo não precisando sair do escritório que tenho em casa; vejo e converso com irmãs, irmãos e amigos pelas redes sociais;  tomo minhas insulinas, espremo meus limões, engulo meus remédios; converso com o filho Dele sem pedir nenhum milagre; olho mais demoradamente para minha mulher, única pessoa a meu lado nesses tempos virulentos; vejo filmes que já vi e tento ler livros que ainda não li; sinto uma saudade maluca dos meus filhos; continuo dormindo mal.

Mas, sobretudo, procuro não desperdiçar uma hora, um minuto, um segundo sequer daquilo que ainda resta, para mim e para você: a vida.

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